15 de dezembro de 2011

«desiludiste-me» outra vez.

ela está tão assustada. sente-se doente. sente-se sem vida, apenas um corpo. ela erra, como toda a gente, mas ela? ela precisa de pagar um preço. não pode simplesmente virar costas e estar-se a marimbando para o assunto, pensava. o preço, perguntam vocês? sangue. daquele vermelho e liquido. como? uma lamina, fina tão afiada que cortava tudo á primeira tentativa. « és tão idiota! », gritava ela, zangada consigo própria. a verdade era que ela já não conseguia parár. quando percebeu que estava doente, foi quando os seus pais tiveram a maior discussão que ela se lembre. fechou-se no quarto e encolheu-se num canto. pôs as mãos nos ouvidos numa tentativa de deixar de ouvir as vozes zangadas, e já roucas, vindas da sala. agarrou nos seus headphones e pôs o volume no máximo. abriu a terceira gaveta da sua mesinha-de-cabeceira e tirou o x-acto que tinha comprado na semana passada na papelaria da escola sem que ninguém soubesse. tirou a lamina de dentro e elevou-a ao pulso. preparada para a dor, ela teve um sentimento totalmente diferente. um vazio. um vazio tão apetecivél. talvez um bocado de prazer, dado o sorriso idiota que tinha. e aí ela deixou o sorriso e pôs algum sentido a si própria. pensou em todas as pessoas que se preocupavam com ela e no « desiludiste-me » que iria receber se eles descobrissem. e isso ainda lhe deu mais vontade de continuar.

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